Pular para o conteúdo principal

Mello Xavier recorre ao Estado e BM

O empresário Mello Xavier vai informar ao Ministério das Relações Exteriores sobre as “sistemáticas violações” do Acordo de Protecção Recíproca de Investimentos 
assinado pelo Estado angolano com a República de São Tomé e Príncipe.

Em causa está a recusa do Executivo do Primeiro-Ministro Patrice Trovoada de devolver a cervejeira Rosema, que o empresário adquiriu em meados de 1990, através de um concurso público internacional supervisionado pelo Banco Mundial, e que lhe foi retirada, na sequência de um contencioso movido em Luanda contra o empresário, por uma empresa também angolana, a JAR, num negócio envolvendo dois navios. 
Mello Xavier promete, igualmente, alertar o Banco Mundial, através da representante para São Tomé e Príncipe, Otilia Renata Hebga, já que foi a instituição que supervisionou o concurso público internacional e, na sequência, o empresário pagou a fábrica na totalidade. Na altura, pela importância da fábrica, o Governo são-tomense decidiu que uma pequena parte das acções (10%) fosse reservado a cidadãos locais.    
O empresário reagiu às declarações do Primeiro-Ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, que afirmou que a exoneração e reforma compulsiva dos juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça tem por objectivo “atacar o cancro” no sistema judiciário do país.
O Supremo Tribunal de Justiça de São Tomé e Príncipe decidiu entregar, na passada quarta-feira, a cervejeira Rosema ao empresário Mello Xavier, em cumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal de Angola, que solicitou a devolução da Carta Rogatória enviada às autoridades judiciais são-tomenses para penhorar as acções da empresa Ridux na sociedade Rosema. No dia seguinte, a fábrica voltou a ser retida de Mello Xavier e entregue a Nino Monteiro que passou de fiel depositário a dono, em situações que o empresário angolano considera estranhas.   
Os juízes destituídos são Silva Cravid, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e os juízes conselheiros Frederico da Gloria e Alice Vera Cruz, todos os que decidiram em acórdão sobre a devolução da cervejeira Rosema ao empresário Mello Xavier.
“Tivemos o que tivemos, cenas que nós vimos, declarações de uns e de outros, muito triste, mas eu quero dizer que a Rosema é o segundo maior contribuinte do país, tem compromissos para com o Estado e o Estado não deixará que se faça qualquer tipo de bandalha com a Rosema”, explicou.
“É preciso que as regras sejam respeitadas e o Estado, perante uma empresa que pesa na economia do país, com a influência na estabilidade macroeconómica, assumirá todas as suas responsabilidades”, acrescentou Patrice Trovoada. 
Silva Cravid, presidente do Supremo Tribunal de Justiça e que também dirige o Conselho Superior da Magistratura Judicial, garante que “não vai acatar de forma alguma” a resolução aprovada pelo Parlamento. “Sempre soube que querem tirar-me daqui. Aliás, o poder nunca teve receio de dizê-lo. Mas eu não vou acatar nenhuma resolução da Assembleia que seja ilegal, eu não acato. Vou usar todos os mecanismos à minha disposição para contrariar isso”, disse Silva Gomes Cravid em declarações aos jornalistas. O Conselho Superior da Magistratura Judicial declarou que não reconhece nenhuma faculdade à Assembleia Nacional para promover a destituição ou exoneração de qualquer magistrado judicial e muito menos juízes conselheiros. 
Mello Xavier afirma que as declarações de Patrice Trovoada põe em causa o princípio de separação de poderes que devia existir e lembra que, já em 2009, o juiz presidente do Tribunal de Lemba (distrito onde está a fábrica) também tinha sido exonerado, por cumprir uma decisão judicial. 
Mello Xavier lembra ainda que o processo resulta de um problema entre duas empresas angolanas e, na sequência, o Tribunal Marítimo de Luanda mandou penhorar as acções da sua empresa, a Ridux, na cervejeira Rosema, e não a totalidade da fábrica. O empresário considera estranho que sejam as autoridades são-tomenses a rejeitar, insistentemente, as ordens do Tribunal Marítimo de Luanda e, mais recentemente, do Tribunal Supremo de Angola, de devolver a fábrica ao proprietário, depois de ultrapassadas as razões que levaram a penhora das acções. 
Mello Xavier lembra ainda que existe um Acordo de Promoção e Protecção Recíproca de Investimentos entre Angola e São Tomé e Príncipe. Assinado em 1995, o documento vem criar condições favoráveis para investimentos de nacionais ou sociedades de um Estado em território de outro, estimular as iniciativas privadas, incrementando o bem-estar entre os povos, além de intensificar a cooperação económica entre os dois Estados. Com o documento, as partes “asseguram, no seu território, um tratamento justo e equitativo aos investimentos de nacionais ou sociedades de outra parte”. 
O documento assegura que “os investimentos de nacionais e sociedades de uma das partes no território de outra parte não podem ser expropriados ou nacionalizados, a não ser por motivos de utilidade pública, mediante indemnizações, que deve ser paga sem demora”.

Vânia D´Almeida
Fonte: Jornal de Angola

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Angola Um País de "Maravilhas"

Angola situa-se na costa atlântica Sul da África Ocidental, entre a Namíbia e a República do Congo. Também faz fronteira com a República Democrática do Congo e a Zâmbia, a oriente. O país está dividido entre uma faixa costeira árida, que se estende desde a Namíbia chegando praticamente até Luanda, um planalto interior húmido, uma savana seca no interior sul e sudeste, e floresta tropical no norte e em Cabinda. O rio Zambeze e vários afluentes do rio Congo têm as suas nascentes em Angola. A faixa costeira é temperada pela corrente fria de Benguela, originando um clima semelhante ao da costa do Peru ou da Baixa Califórnia. Existe uma estação das chuvas curta, que vai de Fevereiro a Abril. Os Verões são quentes e secos, os Invernos são temperados. As terras altas do interior têm um clima suave com uma estação das chuvas de Novembro a Abril, seguida por uma estação seca, mais fria, de Maio a Outubro. As altitudes variam bastante, encontrando-se as zonas mais interiores entre os 1 000 e ...

Morreu Afonso Dhlakama

Afonso Dhlakama,  presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo, principal partido da oposição), morreu aos 3 de Maio de 2018, aos 65 anos, devido a complicações de diabetes, noticiou a imprensa moçambicana que citou fonte partidária. Outras fontes da Renamo confirmaram à agência Efe a morte de Dhlakama, mas não deram detalhes da causa. Dhlakama vivia refugiado na serra da Gorongosa, no centro do país, desde 2016, tal como já o havia feito noutras ocasiões, quando se reacendiam os confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança de Moçambique. De acordo com a Televisão Independente Moçambicana (TIM), Dhlakama morreu quando aguardava, na serra da Gorongosa, por um helicóptero, para ser evacuado para a África do Sul, onde iria ser submetido a tratamento médico. Depois de abandonar Maputo, o líder da Renamo estava escondido no interior da serra da Gorongosa, na província de Sofala, em Moçambique, desde 2015. Dhlakama era desde 1984 o líder político da Ren...

Uma Viagem até à Lunda-Norte

A HISTÓRIA DOS ‘EMBAIXADORES’ DA TCHIANDA O grupo musical Sassa Tchokwe começou a formação artística na década de 1980 na circuncisão (Mucanda), uma escola tradicional, onde ficavam entre seis e dez anos isolados na aldeia. Com a morte do líder, esmoreceu-se até que se dividiu em dois: um em Luanda outro nas Lundas. Mas nunca deixaram de ser Sassa. Em 1984, Leopoldo Mboma Bijô e Mbanvo Cirisse, chamados ‘Grio’ porque cantavam e tocavam só com uma viola, fundaram o mítico grupo tradicional do nordeste Sassa Tchokwe. Foram precursores da Tchianda. Depois houve a necessidade de se pensar na “orquestração”, daí surgiu Txifutxi Shadede, o “primeiro tocador da viola solo dos quiocos”, reconhece Rei da Costa. O grupo era assim liderado por Bijô, que transformou o batuque ‘Ngomaya china’ em viola baixo. Na viola ritmo, estava Vuzule e o baterista era Soreme Mukhakhalo. Antes de conhecer Bijô, que tocava com uma ‘kassekumuna’ (viola de caixa), Rei da Costa, que já interpretava com...